Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Escritor gaúcho Moacyr Scliar morre aos 73 anos


O imortal do Bom Fim, como  brincava para falar de si mesmo, morreu por volta da 1h de ontem aos 73 anos . O escritor gaúcho Moacyr Scliar estava internado, após sofrer um AVC (acidente vascular cerebral), no  Hospital das Clínicas de Porto Alegre. Ele não resistiu e teve falência múltipla de órgãos.


O escritor nasceu no Bom Fim, bairro que concentra a comunidade judaica de Porto Alegre. Tive o prazer de entrevistá-lo na 2 Bienal do Livro de Bauru, em 2003. Ele tinha acabado de ser eleito para a ABL (Academia Brasileira de Letras), mas fazia questão de dizer com humildade que devia muito a sua origem.


“Nossa família e a comunidade se reunia para contar e ou vir histórias no bairro. Aprendi muito com isso e quando comecei a escrever gostava de ser chamado de o escritorzinho do Bom Fim”, disse na época.

Médico /Mas Moacyr começou sua vida adulta com outra paixão, a medicina. Se formou em 1962 em medicina e especializou-se como médico sanitarista, experiência que ele também ressaltava como muito importante na carreira de escritor.


Seu primeiro livro veio desse trabalho: “Histórias de um Médico em Formação”, em 1962. A partir daí não parou mais:  publicou mais de setenta livros, entre crônicas, contos, ensaios, romances e literatura infanto-juvenil, além de crônicas em jornais.


Scliar ganhou quatro vezes o Prêmio Jabuti – a mais recente, em 2009, com o romance “Manual da paixão solitária”. Também venceu com os romances “Sonhos Tropicais” (1993) e “A Mulher que Escreveu a Bíblia” (2000) e com o conto  “O Olho Enigmático” (1988). 
  
‘Max e os felinos’ virou polêmica em 2002
Em 2002 Moacyr Scliar se envolveu em uma polêmica com o  canadense Yann Martel, cujo famoso romance “A Vida de Pi”, vencedor do prestigioso prêmio Man Booker, foi acusado de ser um plágio da sua novela “Max e os felinos” (1981), que conta  a história de um jovem judeu que sobrevive a um naufrágio e divide um bote  com uma pantera. 

No livro de Martel, um jovem indiano escapa de um naufrágio e divide um bote com um tigre.  

O caso nunca foi provado e Scliar dizia não se importar muito. Preferiu continuar escrevendo vários livros sobre a  imigração judaica no Brasil, religião, o socialismo,  a medicina e a vida da classe média.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Cético e lírico

"O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha" (1604), de Miguel de Cervantes, "As Viagens de Gulliver" (1726), do irlandês Jonathan Swift, e "Tom Jones" (1749), do inglês Henry Fielding, são três clássicos da literatura universal sobre três heróis ridículos, momentos em que a arte mostrou a extrema miséria dos homens e, talvez por isso, produziu obras de muita poesia. Aqui no Brasil, nos dias atuais, o escritor carioca Carlos Heitor Cony (1926) confessa serem esses os livros da sua formação, aqueles que mais influenciaram suas publicações. Não é uma surpresa, pois desde o romance "O Ventre" (Civilização Brasileira, 1958) ele encara a família e seus conflitos, desafios, perenidade, dramas, ou seja, um conjunto que reflete as desventuras da sociedade.



        O bastardo José Severo é o herói ridículo de "O Ventre", um cínico desencantado com a vida, sem razões e relações de afeto, uma história influenciada pelo filósofo existencialista Jean Paul Sartre. Em 1956, portanto antes de sua publicação, o texto concorreu ao Prêmio Manuel Antônio de Almeida (Romance), promovido pela Prefeitura do Rio de Janeiro. O júri composto por Austregésilo de Athayde, Celso Kelly e Manuel Bandeira, afirmou se tratar de um grande romance, mas forte demais para vencer um concurso oficial. Nos anos seguintes, o autor insistiu nesse mesmo concurso e foi finalmente premiado, "A verdade de cada dia" (1957) e "Tijolo de segurança" (1958) foram eleitos por escritores como Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz e Antônio Callado.

        "Informação ao Crucificado" (1961), o quarto romance de Cony, é outro momento importante para entender a vida e a obra do autor. Ele é o diário do ex-seminarista João Falcão, uma problematização confessional, irônica e bem-humorada do catolicismo. A fonte autobiográfica é evidente: em 1938, Cony entrou para o Seminário Arquidiocesano de São José, no Rio Comprido (Rio de Janeiro/RJ), fazendo cursos de Humanidades e Filosofia. Saiu pouco antes de ser ordenado padre, pois queria liberdade para pensar.

        Em 1967, "Pessach: a travessia" contou a história de Paulo Simões, escritor burguês de sucesso que acaba entrando na luta armada. Cony também foi um crítico duro e consciente da ditadura militar brasileira, assim como denunciava os dilemas da esquerda. É disto que trata esse livro, também uma analogia com a noite de Pessach, na qual, guiado por Moisés, o povo judaico fugiu da opressão do Egito.

        "Pilatos" (1974), marca o final de um ciclo. Após a publicação do seu nono romance, o autor declarou que jamais voltaria a escrever outro. Não era verdade, pois retornou para os romances em 1995. Contudo, hoje Cony faz uma afirmação que explica um pouco esse intervalo de 21 anos: "Como Thomas Mann, eu também sobrevivi a minha obra". O escritor alemão (1875-1955) escreveu seus principais livros, "Os Buddenbrook" (1901), "Morte em Veneza (1912)", "A Montanha Mágica" (1924), e continuou vivo, porém sem produzir mais obras-primas, por isso dizia que sobreviveu à própria obra. Cony também tem essa opinião sobre si. De fato, entre 1958 e 1974, ele produziu seus melhores livros, ainda não igualados em sua fase mais recente.

        A sensação de "dever cumprido" que "Pilatos" trouxe ao escritor, é justamente a história bem humorada e cruel de um homem que perde o pênis. Leia a seguir um trecho:

       "É difícil - ou inútil - datar o início desta história. Ela está começando hoje, talvez só comece realmente amanhã, mais tarde ainda, ou nunca. Sei que a história existe, está escrita e inscrita em minha carne, mas creio que ela não teve um início, nem mesmo no dia em que resolvi dar um nome ao meu pau.
       Cometo uma falsidade histórica: a história começa no dia em que descobri a existência de um pau entre as pernas, sem me importar com o fato de não ter ele um nome. O certo é que custei a descobrir o próprio pau, e mais certo ainda é que vivi anos sem me preocupar em dar-lhe um nome.
       Não sou exatamente um entendido, mas sem esforço de erudição e memória posso lembrar uma dúzia de nomes, sem apelar para as expressões respeitáveis que figuram nos dicionários e livros de educação sexual. Nenhum deles me agrada. Além de feios, são ambíguos. Órgão, por exemplo, pode ser aquele instrumento tocado nas igrejas. Membro pode ser um membro da Câmara dos Deputados. Vara pode ser uma Vara de Família ou uma Vara de Órfãos e Sucessões. Cacete e pau são quase outras coisas - ou as mesmas coisas -, e caralho tem o inconveniente de ser parecido com carvalho e Carvalho.
       Foi esse, aliás, o primeiro nome que me ocorreu quando pensei em chamar meu pau de alguma coisa. Mas a recíproca funcionou. Se caralho é parecido com Carvalho, Carvalho é parecido com caralho. Tive um amigo que se chamava Carvalho - Pedro Gomes de Carvalho -, e não seria decente utilizar seu nome para designar coisa tão importante e pessoal.
       Cheguei ao nome de Herodes mais ou menos por acaso. Mais tarde descobri razões para o nome e emprego. O primeiro contato com o nome do rei que mandou matar as criancinhas foi num circo, em Lins de Vasconcelos, que naquele tempo era uma terra-de-ninguém entre o Méier e o Engenho Novo.
       Fiquei impressionado com o que vi: um drama incompreensível para a minha idade e ocioso para as minhas preocupações. Uma mulher dançava com véus, um homem barbado comparecia apenas com a cabeça numa bandeja, e um outro, meio sobre o balofo, dava ordens e gritava imprecações que eu não entendia nem fazia esforço para entender. O que me ficou desse homem em particular, e do drama em geral, foi um esplêndido manto vermelho coberto de dourados. Esse manto vermelho passou a significar, para mim, tanto a condição de Herodes como a condição de rei.
       Um dia, na mais baixa adolescência, enquanto me masturbava, olhei a cabeça do pau e notei que ela estava vermelha, granada pronta para explodir. A associação se fez para sempre: rei-manto vermelho-Herodes-pau.
       HERODES.
       Gostei do nome. Parece que o pau também gostou.
       Formamos assim - tal como Batman e Robin - uma dupla dinâmica. Passei a carregar Herodes entre as pernas, provendo-o em suas necessidades básicas. Ele crescia em graça, talento e formosura para o que desse e viesse."
"Pilatos", (Civilização Brasileira, 1974)

Peixes
        Na II Bienal do Livro de Bauru em 2003, Cony discutiu também sua outra profissão, o jornalismo. Desde 1952, ele é um dos principais jornalistas do país. Começou cobrindo as férias do seu pai, o jornalista Ernesto Cony Filho, no Jornal do Brasil. Depois, em 1960, vai para o Correio da Manhã, no qual foi redator, cronista, editorialista e editor. Em 1963, também passa a escrever uma coluna para o jornal Folha de S. Paulo.

        Por críticas ao regime militar, foi preso seis vezes entre 1964 e 1968 (seis também foram o número de casamentos). "O ato e o fato" (1964), é uma coletânea de crônicas políticas publicadas no Correio da Manhã. Quando o Ato Institucional nº. 2 foi decretado, em 1965, o jornalista escreveu uma crônica atacando-o. Isto gerou um atrito entre a direção do jornal Correio da Manhã e a redação. Cony demite-se.

        Em 1968, com um convite de Adolpho Bloch, volta a trabalhar com jornalismo nas revistas do grupo Manchete. Publicou três ensaios biográficos, "Chaplin" (1967), "Quem matou Vargas" (1972), "JK: Memorial do Exílio" (1982), e três livros-reportagem, "O caso Lou - Assim é se lhe parece" (1975), "Nos passos de João de Deus" (1981) e "Lagoa" (1996).

        A volta para a imprensa diária ocorreu em 1993, ao assumir a coluna "Rio" no jornal Folha de São Paulo, vaga no ano anterior com a morte de Otto Lara Resende. Em 1996, passa a escrever aos sábados no caderno cultural da Folha e também a integrar o Conselho Editorial do jornal. São três as coletâneas dessa fase no jornal paulistano, os livros de crônicas "Os Anos Mais Antigos do Passado" (Record, 1998), "O Harém das Bananeiras" (Objetiva, 1999), e "O presidente que sabia javanês" (Boitempo, 2000). Os dois primeiros têm tons autobiográficos (infância no subúrbio carioca, o pai, o seminário), temas políticos e um lirismo culto e desencantado, já o último são duras críticas aos rumos neoliberais e fisiologistas do governo FHC, acompanhadas das charges de Angeli.

        Todos esses anos no jornalismo deram a Cony uma grande consciência crítica da profissão. Ele usa uma metáfora irônica e reveladora para descrever o escritor e o jornalista: "o escritor é um peixe feio do oceano, vive em águas bem profundas, escuras, barrentas, onde é preciso lutar para sobreviver, já o jornalista é um peixinho de aquário, colorido, que faz gracinhas para aparecer, vive cercado de enfeites de plástico e que recebe uma ração diária".

Mila
        Uma das grandes companheiras de Cony viveu com ele treze anos. Tinha um amor muito fiel e puro pelo escritor. Foi tão importante que, depois da sua agonia e morte, ele inspirou-se para voltar a literatura. Foi a ternura simples e desinteressada da cadela Mila que marcou o reencontro do Cony-filho com o Cony-pai em "Quase memória" (Companhia das Letras, 1995), um livro de lembranças de seu pai, Ernesto Cony Filho. É também um "quase-romance", no qual os pequenos gestos ganham dimensão de grande aventura e poesia: um sanduíche de presunto, um prato com deliciosa comida de botequim, o cheiro de manga, o sonho de viajar para a Itália, fazer balões, soltar balões. Memórias do pai sem a intenção de fazer um acerto de contas ou vingança, prática comum nos memorialistas brasileiros, mas sim que mostra a alegria das lembranças e a cumplicidade de um pai com seu filho.

        Foi um retorno especial, premiado em 1996 com o Jabuti de melhor livro de ficção do ano. Ainda neste ano, Cony ganhou o Prêmio Machado de Assis, conferido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) ao conjunto da obra.

        Desde então, outros três livros do escritor já receberam mais lauréis: em 1997, Prêmio Nestlé de literatura para "O Piano e a Orquestra" (Companhia das Letras, 1996) na categoria consagrado; em 1998, Prêmio Jabuti de melhor romance para "A Casa do Poeta Trágico" (Companhia das Letras, 1997); e o mesmo Prêmio Jabuti em 2000 para "Romance sem palavras" (Companhia das Letras, 1999). No primeiro, Cony criou, a partir das aventuras do mambembe Francisco de Assis Rodano, um "folhetim cômico-transcendental", os dois últimos são uma volta aos seus temas freqüentes: relacionamentos amorosos espinhosos e a ditadura militar brasileira.

        Ainda em 2000, Cony foi eleito para ABL. Ocupa a cadeira número 3 que pertencia a Herberto Sales.

Pedro matou Paulo
        Alguns leitores reclamam que os livros de Cony têm histórias parecidas e finais inconclusos. Ele concorda com isso, pois gosta de repetir os assuntos de suas obras e não se interessa em dar um término absoluto para suas histórias, ao contrário, ele deixa subentendido que no dia seguinte seus personagens vão continuar vivendo como antes.

        O autor não se considera um "contador de histórias", como geralmente os escritores se denominam. Ele chega a dizer que não dá a mínima para suas histórias, o que lhe interessa são as reflexões que elas vão gerar. Indo mais além, ele afirma que isso ocorre em toda a literatura, isto é, as tramas são muito parecidas, apenas são diferentes os raciocínios originados da leitura. Cita o exemplo de três clássicos, "Anna Karenina" (1875-1877), de Leon Tolstoi, "Madame Bovary" (1856), de Gustave Flaubert, e "O Primo Basílio" (1878), de Eça de Queirós. São praticamente a mesma história, os adultérios de Anna, Emma e Luisa, respectivamente. Mas nem por isso são plágios, pois são de países diferentes e causam reflexões e sentimentos diversos.

        É como se todas as histórias se resumissem a um "Pedro matou Paulo", segundo Cony. Desde as mais remotas narrativas, a literatura oral, os mitos gregos, as parábolas bíblicas, as peças de Shakespeare, sempre existiram relatos de conflitos e amores humanos. É um grande "Pedro matou Paulo" com algumas modificações ocasionais.

        Hoje, em seu último romance, "A tarde da sua ausência" (Companhia das Letras, 2003), Cony volta a escrever sobre a família, dessa vez mostrando o caso entre Henrique e sua cunhada Vera, tendo como pano de fundo a ascensão e o declínio dos Machado Alves. Nas duas últimas partes do livro o autor comete um "erro proposital": repete capítulos anteriores. Não é uma falha de impressão, o escritor quis mostrar que a vida dos personagens se repetiu. De novo, "Pedro vai matar Paulo".

A Frente Ampla
        O próximo livro do autor, já escrito, em parceria com a jornalista Ana Lee, vai ser lançado em novembro. "O beijo da morte" levanta suspeitas sobre as mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart e do ex-governador carioca Carlos Lacerda na década de 70. Eles formavam a Frente Ampla, três fortes personalidades da esquerda (Jango), centro (Kubitschek) e direita (Lacerda), que reuniam praticamente 100% do eleitorado. Num período de nove meses os três morreram. Nenhum deles estava doente e as circunstâncias das três mortes são misteriosas.

        Cony e Lee não conseguem provar os assassinatos, porém os indícios de atentado político são muito fortes. Eles concordam com uma declaração do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, numa comissão da Câmara dos Deputados para apurar a morte do João Goulart: "Minha opinião é que os três foram assassinados. Se os fatos não provam isso, azar dos fatos".


Leia a seguir uma entrevista com Carlos Heitor Cony:

Pergunta - Um personagem muito presente nas crônicas do sr. é o compositor mineiro Ary Barroso (1903-1964). Comente esse fascínio.
Carlos Heitor Cony - Na minha geração, na época de menino, quando comecei a ouvir rádio, me interessar por esportes, por música popular, o Ary Barroso era sujeito sem nenhuma comparação com os atuais, nem Caetano Veloso, nem Gil, Chico Buarque, Tom Jobim. Porque Ary Barroso não era só um grande compositor, de outro gênero evidentemente, outro tipo de samba, mas ele era um homem de rádio, televisão, calouros, um homem esportivo, foi ele quem criou a mística do Flamengo. Ele transmitia os jogos do seu time como um torcedor, não transmitia direito, quando tinha pênalti contra o Flamengo ele dizia nem querer ver. Foi um tipo importante, marcou muito, as músicas dele, não as famosas como "Aquarela do Brasil", "Na baixa do sapateiro", mas outras que nem sobreviveram, estão fora de catálogo, eram as mais gostosas, aquelas que nós cantávamos mais, como "Upa-upa cavalinho alazão", eram coisas das nossas brincadeiras, paródias. Marcou minha juventude e, mais tarde, tive a oportunidade de me tornar amigo pessoal dele, um dos amigos que mais me marcaram também.
       O Ary Barroso é tido, com razão, um péssimo letrista, mas geralmente quando as pessoas acertam naquilo que não são boas, aí saem coisas ótimas, como foi a letra de Camisa Amarela. Ele teve grandes letristas como Lamartine Babo, Luis Peixoto, Noel Rosa, mas ele não foi um bom letrista, a exceção foi "Camisa Amarela", que é uma das letras mais perfeitas da música popular brasileira de todos os tempos.

Pergunta - O sr. ainda está escrevendo a biografia de José Lins do Rego?
Cony - Não mais. Quando fui eleito para ABL, no dia seguinte já fui designado para uma das comissões existentes na Academia, justamente a que julga o Prêmio José Lins do Rego, e já existiam mais de 50 livros sobre ele. Eu iria ser jurado, eu e mais cinco acadêmicos, iríamos decidir qual melhor livro. Então, de duas uma, ou fazia o livro e concorria, ou só participava do júri. O premiado foi um livro de Luciano Trigo, que é muito bom, talvez não tão abrangente quanto queria fazer. Aliás, também gostaria de fazer um livro abrangente sobre Ary Barroso.

Pergunta - O sr. já foi preso seis vezes, e destas a mais emblemática foi a dos Oito do Glória (Cony, Mário Carneiro, Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade, o embaixador Jaime Azevedo Rodrigues, o diretor teatral Flavio Rangel e os jornalistas Antônio Callado e Marcio Moreira Alves foram presos em frente ao Hotel Glória, no Rio, em 1965). Como foi essa prisão.
Cony - Nós íamos fazer uma manifestação contra o regime do Castelo Branco e os organizadores haviam prometido 5 mil pessoas, estudantes e operários. Na hora só apareceram uns dez gatos pingados, e desses dez, oito foram presos. Passamos um mês, mais ou menos, numa prisão. Foi muito bom, nós já éramos conhecidos entre nós mesmos, brigamos muito e temos muita saudade desse tempo.

Pergunta - Li um depoimento do sr. no site da Câmara Federal a respeito da "Mídia, Democracia e Parlamento Brasileiro". Duas das opiniões que o sr. escreve são que não existe um "Quarto Poder" da mídia, ela é apenas uma força, e quem manda na mídia é uma coisa subterrânea, um vírus invisível, o verdadeiro poder. Comente isso.
Cony - Hoje em dia, o verdadeiro poder são impulsos eletrônicos que vão da bolsa de Tóquio para Nova Iorque, de Nova Iorque para Wall Street, de Wall Street volta para Nova Iorque. As bolsas abrem em horários diferentes devido aos fusos horários. Então, a humanidade toda está sujeita a isso, há uma nuvem de 17 trilhões de dólares voando e nós somos vítimas dessa onda, não temos poder sobre ela, ao contrário. Não tem pessoas físicas dominando isso, quem faz isto é o capital internacional, o neocapitalismo no seu ponto mais alto.

Pergunta - Como é o programa "Liberdade de expressão" que o sr. faz com os jornalistas Heródoto Barbeiro e Arthur Xexéo pelas manhãs na rádio CBN, e que neste ano virou livro, "Liberdade de expressão" (Futura, 2003)?
Cony - É um programa bom de se fazer, tenho liberdade, não temos pauta. Nós dizemos o que bem entendemos sobre política, esporte, sexo, religião, e até hoje não deu problema, excetuando um dia em que eu falei num tom marginal, periférico, sobre que nunca se deve confiar muito em japonês, pois eles não são muito claros, riem muito quando a gente vai negociar algo com eles, e isto não quer dizer que estejam aceitando o negócio. Alemão não, eles custam a rir, mas quando apertam a mão está fechado o compromisso. Com o japonês você sai das reuniões sem saber se foi comprado ou vendido. Então, recebi muitas reclamações quando disse isso, da colônia japonesa, do embaixador, enfim, foi a única vez que reclamaram, mas nunca tive censura pelo lado da rádio.

Pergunta - Um fato muito triste e marcante para o senhor foi a morte da sua cadela Mila, em 1995. Foi até um dos motivos principais para o senhor ter voltado a escrever. Gostaria que o sr. comentasse o amor dos animais e dos seres humanos.
Cony - O ser humano, desde quando ele nasce, começa a ser possuído pelos outros. Digamos, uma criança nasce, ela não é só da mãe, é do pai também, juridicamente, fisiologicamente, depois vem o Estado e obriga a reconhecer no registro civil. À medida que a criança começa a crescer, quando tem cinco anos ela já tem os amiguinhos, depois a professora, mais amigos, a namorada, aos 15 anos essa mesma criança terá uma porção de donos. É um amor que se distribui, tem o pai, a mãe, a namorada, um amigo, tem uma história independente para cada, ao passo que os cachorros não. Eles têm uma glândula qualquer que escolhe o dono, e aí acabou, pode ser o maior tirano do mundo, o maior assassino.
       Sobre isso, vi uma coisa impressionante em Frankfurt, quando fui numa feira de livros lá. É uma cidade rica, calçadas monumentais e não tem mendigos. Eu vi um camarada, desses alemãozões, louros, mas só que todo maltrapilho, com uma porção de coisas na calçada, cerveja, um radiozinho, era o único mendigo que havia em toda aquela cidade, e tinha um cachorro. Contaram-me que várias pessoas tentaram tirar o cachorro dele, mas o animal não ia, ficava com o dono. Isso o ser humano dificilmente faz.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Troco bolinhas de gude por palavras


Ele nasceu em Araraquara (1936) e é autor de contos, romances, livros infanto-juvenis, crônicas e biografias. As situações absurdas que seus personagens enfrentam são alegorias de um estado autoritário ("Zero", Brasília/Rio, 1975) ou dos seres sem-rosto de um mundo ultra-urbano ("O homem que odiava a segunda-feira", Global, 1999). Seu último livro, "O Anônimo Célebre" (Global, 2002), é resultado de observações do mundo "fake" das celebridades. Trabalhando como editor da revista Vogue, Ignácio de Loyola de Brandão conhece de perto a busca insana e ridícula dos anônimos pela fama. É uma obra engraçada, sensual e cruel, um verdadeiro (anti)manual para quem quer ser famoso.

        Confira uma entrevista exclusiva que o escritor deu na II Bienal do Livro de Bauru em 2003 a respeito de sua obra e formação:



Pergunta - O pai do Sr., que chegou a publicar histórias em jornais locais de Araraquara e formou uma biblioteca própria, participou da sua formação literária? Ele incentivou o Sr.?
Ignácio de Loyola Brandão - Meu pai influenciou, incentivou e orientou minha obra. Ele lia muito, a biblioteca dele era muito variada, tinha Graça Aranha, Machado de Assis, Balzac completo, enfim, era um homem interessado em livros, interessado na palavra. Ele escreveu alguns contos, publicou nos jornais de Araraquara, e fazia os discursos na igreja, no lugar dos padres. Eu via muito meu pai escrever e ele me orientava dizendo, escreva com poucas palavras, use o mínimo de palavras que você puder e o máximo de idéias que estiverem dentro de algo. Um conselho que até hoje mantenho.
       À medida que fui escrevendo livros e publicando, eu senti nele uma espécie de realização. Talvez o escritor que ele queria ser, o filho estivesse sendo. Então foi sempre uma relação muito legal, muito gostosa, muito bonita, que se prolongou até ele morrer em 1996.

Pergunta - Quando criança, o Sr. chegou a trocar com seus colegas de classe palavras por bolinhas de gude e figurinhas. Como é essa história?
Brandão - Sim, depois até virou um conto, meu primeiro conto, chamado "O menino que vendia palavras", publicado numa revista. Foi um episódio da minha infância, meu pai me ensinou a ler dicionários, eu lia palavras diferentes e anotava. Acabei conseguindo um grande arsenal de sinônimos, palavras que ninguém conhecia. Quando a professora dava trabalhos de sinônimos, nas aulas diárias de português, meus colegas vinham pedir ajuda e eu fazia os trabalhos deles. Mas nunca fiz de graça, trocava por bolinhas de gude, tampinhas, pipas, carretel de linha, gravuras tiradas de jornais ou revistas. Então, no fundo fui profissional desde o início.

Pergunta - Desde muito cedo o Sr. também começou a trabalhar com jornalismo, em agosto de 1952 aos 16 anos, e continua até hoje. Por que escolheu essa carreira?
Brandão - Por uma coisa muito simples, eu gostava muito de cinema, lia muito sobre, críticas, livros, e aí um dia resolvi escrever uma crítica. Mostrei para os meus amigos de escola do Científico, gostaram e passei toda a semana fazer uma crítica para os colegas de escola. Depois, sugeriram-me levar esses textos para o jornal, que publicou. Primeiro foi a "Folha Ferroviária", depois o "Correio Popular", que eram do mesmo dono. Incentivaram-me a continuar, tomei gosto pela crítica. Passei para um jornal diário em Araraquara, comecei a fazer reportagens e entrevistas, adorava aquilo, conhecia gente, ficava andando de um lado para o outro. Eu pensava, esse é um emprego no qual eu não fico fechado dentro de um escritório. Meu pai era ferroviário, trabalhava em escritório, todo dia era a mesma coisa, não queria isso para mim. O jornalismo me deu uma variedade enorme de possibilidades. Comecei e não parei até hoje.

Pergunta - Uma história curiosa sobre o Sr. e o cinema é a respeito de sua grande veneração pelo filme "8 ½" (1963), de Federico Fellini. O Sr. já o teria assistido 53 vezes. Como o cinema influenciou sua literatura?
Brandão - Assisti "Oito e meio" muitas mais vezes. Hoje, já deve ter passado de oitenta. É um filme que eu vejo e revejo, foi muito importante para mim, pois eu descobri a extrema liberdade que o Fellini usou. São vários planos, o da imaginação, do sonho, da realidade, da idealização. No filme, a história de um diretor de cinema que não consegue fazer seu longa-metragem é o tema do processo da criação. Isso me fascinou profundamente.

Pergunta - Recentemente entrevistei o escritor Fernando Bonassi e ele falou da experiência de viver e trabalhar na Alemanha, já que em 1998 ganhou a bolsa do Kunstlerprogramm do DAAD (Deutscher Akademischer Austauschdienst). Ele adorou viver em Berlim e produziu um livro de contos ("O Livro da Vida"). O Sr. também ganhou essa bolsa e viveu em Berlim, como foi sua experiência?
Brandão - Eu fiquei quase dois anos na Alemanha, mais do que o Bonassi. Fui o primeiro escritor brasileiro a ganhar essa bolsa, foi antes da queda do Muro. Eu vivi na Berlim dentro do Muro, que era realmente uma cidade louca. A experiência não só foi muito boa, como rendeu dois livros, "O beijo não vem da boca" (Global, 1985) e "O verde violentou o muro" (Global, 1984). Este último acabou sendo um best-seller, pois foi o primeiro livro brasileiro que falou sobre o Muro de Berlim, como se vivia dentro do Muro, a paranóia do Muro e tudo mais. Eu diria que foi um dos períodos mais felizes da minha vida o tempo que morei em Berlim.

Pergunta - Na II Bienal do Livro de Bauru o Sr. veio debater literatura e temas relacionados a sua obra com o escritor Antônio Torres. Nos anos 70, vocês dois mais o João Antonio faziam o mesmo, viajando pelo Brasil e discutindo literatura e política durante a ditadura. Que recordações o Sr. tem desse período?
Brandão - Andamos pelo Brasil inteiro, era uma época de ditadura, de repressão, de medo, porque às vezes estávamos falando para uma platéia e a polícia estava junto anotando tudo. De qualquer forma viajamos muito e discutíamos muito mais política e a situação do Brasil do que literatura. Foi um período em que a gente acabou conhecendo o Brasil e isto, claro, se reflete na nossa produção literária.



Obras do autor

Contos:
"Depois do sol" (Brasiliense, 1965)
"Pega ele, Silêncio" (Símbolo, 1976)
"Cadeiras proibidas" (Símbolo, 1976)
"Cabeças de segunda-feira" (Codecri, 1983)
"O homem do furo na mão" (Ática, 1987)
"O homem que odiava a segunda-feira" (Global, 1999) (Prêmio Jabuti de "Melhor Livro de Contos")

Romances:
"Bebel que a cidade comeu" (Brasiliense, 1968)
"Zero" (Brasília/Rio, 1975)
"Dentes ao sol" (Brasília/Rio, 1976)
"Não verás país nenhum" (Codecri, 1981)
"O beijo não vem da boca" (Global, 1985)
"O ganhador" (Glogal, 1987)
"O anjo do adeus" (Global, 1995)
"O Anônimo Célebre" (Global, 2002)

Infanto-juvenis:
"Cães danados" (Belo Horizonte Comunicações, 1977) - reescrito e publicado como "O menino que não teve medo do medo" (Global, 1995)
"O homem que espalhou o deserto" (Ground, 1989)

Viagens:
"Cuba de Fidel: viagem à ilha proibida" (Livraria Cultura, 1978)
"O verde violentou o muro" (Global, 1984)

Relatos autobiográficos:
"Oh-ja-ja-ja" (diário de Berlim, inédito em português)
"Veia bailarina" (Global, 1997) (experiência da recuperação de um aneurisma)

Crônicas:
"A rua de nomes no ar" (Círculo do Livro, 1988)
"Strip-tease de Gilda" (Fundação Memorial da América Latina, 1995)
"Sonhando com o demônio" (Mercado Aberto, 1998)

Biografias:
"Fleming, descobridor da penicilina" (Ed. Três, 1973)
"Edison, o inventor da lâmpada" (Ed. Três, 1973)
"Ignácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus" (Ed. Três, 1974)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Odeio patrão

Ele escreve todo dia uma média de 14 horas. Senta em frente o computador de manhã e só pára de noite. Diz que tira uma dor quando escreve, sente prazer nisso, uma verdadeira terapia. Quando a inspiração não vem, ele se "aquece" ouvindo Lou Reed, lendo seus autores prediletos (Camus, Graciliano, Dostoievski, Henri Miller), se masturbando, enfim, procura a emoção para criar. Fernando Bonassi (1962), depois de muitos livros, roteiros, peças, hoje é um escritor brasileiro que consegue viver de sua arte.

        Essa conquista da auto-suficiência ele faz questão de enaltecer, não só por vaidade, mas também porque se sente muito feliz com isso. Bonassi vem de uma família paulistana de classe média-baixa da Mooca, seus pais eram metalúrgicos. Conseguiu passar na USP, fez Cinema na ECA. Seu primeiro curta, "Os circuitos do olhar", é de 1984. Mas ele cismou em tentar mais, queria escrever. Pegou esse gosto lá pelos 14 anos, quando escrevia bilhetes para uma garota que não olhava na sua cara. Não deu certo, os bilhetes não foram entregues, nem nunca se olharam, mas Bonassi seguiu escrevendo. Como muitos escritores, começou com um livro de poesias, "Fibra Ótica" (Massao Ohno Editor, 1987). O segundo, agora de contos, levou muitos não, dez para ser exato, algumas editoras até disseram que ele deveria procurar outra coisa para fazer. Finalmente, em 1989, saiu "O Amor em Chamas" (Estação Liberdade).



        Depois, veio o primeiro livro do autor de mais repercussão, o romance "Um céu de estrelas" (Siciliano, 1991), que Tata Amaral adaptou para o cinema em 1995. Ganhou prêmios de melhor filme nos festivais de Biarritiz (França), Brasília e Trieste. A história é uma tragédia da Mooca: o metalúrgico Vítor não aceita o fim do noivado com a cabeleireira Dalva, ambos são cheios de sonhos, mas terminam num violento desespero social e emocional.

        Dezesseis livros vieram em seguida, seis destes na literatura infanto-juvenil, que o autor confirma serem seus mais vendidos, como "A incrível história de Naldinho - um bandido ou um anjinho?" (Cosac & Naify, 2001), sobre crianças que acabam no mundo do crime. Por abordar temas assim, sua literatura infantil é dita "violenta", porém Bonassi crê que este é um dos enfoques corretos para as crianças das grandes cidades. "Acho a literatura infantil de hoje muito babaca, sem nada da realidade. Não dá para trabalhar só contos de fadas com crianças que vivem num mundo tão desigual", comenta.

        Por outro livro infantil, "Declaração Universal do Moleque Invocado", (Cosac & Naify, 2001), uma subversão bem-humorada da Declaração Universal dos Direitos da Criança, o autor foi indicado como finalista do Prêmio Jabuti 2002. A cidade de São Paulo, suas ruas, casas, cortiços e pessoas, foram inspiração para outro livro do autor que concorreu ao mesmo prêmio no ano seguinte, agora na categoria Contos e Crônicas por "São Paulo/Brasil" (Dimensão, 2002).



        O último livro de Bonassi é "Prova Contrária" (Objetiva, 2003), uma criação que surgiu de uma lei sancionada em 1995 pelo então presidente FHC: o Estado passou a reconhecer como mortas as pessoas desaparecidas em razão de participação ou acusação, em atividades políticas, no período de 1961 a 1979, bem como assumiu a responsabilidade pelas arbitrariedades cometidas por seus agentes e estabeleceu indenização financeira aos familiares das vítimas. No livro, uma mulher consegue esse dinheiro do governo, já que seu marido sumiu durante a ditadura. Ela compra um apartamento e, justamente no dia da mudança, o esposo reaparece depois de tanto tempo. Ele não dá só uma explicação para isto, mas logo três: ou ele é um fantasma, ou é um traidor da causa revolucionária que resolveu sumir todo esse período, ou é um homem que havia se cansado da relação com a esposa e abandonou-a.


Berlim

        Um fato que marcou a obra de Bonassi foi uma bolsa de estudos alemã ganha em 1998. O Kunstlerprogramm do DAAD (Deutscher Akademischer Austauschdienst) paga aos escritores 2.500 dólares para escrever um livro e banca sua moradia por um ano. Ele adorou viver numa "cidade tão louca como Berlim", e produziu "O Livro da Vida", projeto de contos curtos com mil histórias do mesmo tamanho. Algumas delas já foram publicadas no Brasil: "100 Coisas" (Ed. Angra, 2000) e em "Passaporte" (Cosac & Naify, 2001).

        Mas o mais importante dessa temporada alemã é que depois Bonassi decidiu de vez ser um escritor. Ele conta que resolveu abrir mão de alguns confortos materiais e salário burguês, hoje prefere viver modestamente fazendo aquilo que ama, escrever. Tanto que vai abandonar sua coluna "Macho" na Folha de S. Paulo por não se sentir mais feliz com ela. A propósito, declara que o jornalismo e a propaganda são a morte do escritor. "Para falar a verdade, eu odeio patrão", completa.


        Leia um dos contos de "100 Coisas":


"Antes de casar, Zeca escolheu muita mulher até escolher Silvia, que engordou. Já Hirani escolheu muito marido até escolher Dario, que bate nela. César escolheu muito amigo até escolher Wilsinho, que o levou à cadeia nuns lances aí. Cristina escolheu várias amigas até escolher Hirani, que roubou seu marido. O marido de Hirani escolheu muitas amantes até se apaixonar por Silvia. Cristina escolheu muitos amores até escolher Wilsinho, que está preso. César escolheu muitos companheiros de cela, até encontrar Genésio, que o fez descobrir um outro lado de si. José Carlos escolheu ser corno."

Faça sua escolha - conto retirado de "100 coisas", de Fernando Bonassi (Angra, 2000)


Aqui e Agora

        No Salão de Idéias da II Bienal do Livro de Bauru, o tema proposto para Bonassi foi "Literatura Aqui e Agora", claro, um trocadilho com sua obra tida, às vezes, violenta e o extinto programa mundo cão da TV. Ele não nega totalmente esse título fácil, pois parte de sua obra aborda temas violentos sim, como a participação no roteiro de "Estação Carandiru", de Hector Babenco. Por sinal, um trabalho que Bonassi tem duas visões. A primeira, uma grande experiência pessoal trabalhando no Carandiru durante a roteirização com o próprio Babenco e Victor Navas (por um ano e meio Bonassi ajudou os detentos a escreverem cartas). A segunda, o desagrado com o resultado final, "um filme muito acadêmico, como novela das oito", segundo sua opinião.

        Mesmo assim ele exalta o sucesso de obras como "Estação Carandiru", "Os Matadores" (co-roteirização dele também) e "Cidade de Deus". "É uma abertura para os problemas sociais. As pessoas escolheram ver as mazelas nacionais, esse novo governo representa isso", analisa.

        Em relação a outros temas, o autor citou seu romance "O amor é uma dor feliz" (Moderna, 1997), uma obra quase autobiográfica narrada por um garoto que cresce num bairro operário decadente, mas que consegue passar no vestibular para cinema e vai estudar na melhor universidade pública do país. "Nesse livro, tudo o que escrevi é verdade, principalmente o que eu inventei", brinca.

        Em relação à "Geração 90", um nome inventado pela imprensa para designar os novos escritores que entraram em evidência na última década do século passado, como Marçal Aquino, José Roberto Torero, Marcelo Mirisola, Bonassi opina que é mais reducionista do que fiel à realidade. "Eu, por exemplo, formei minha cabeça durante a década de 70 e comecei a publicar já nos anos 80. É mais um recorte da mídia. Alguns jornalistas e/ou críticos dizem que uma característica que une todos esses escritores é o extremo realismo nos textos, o que não é verdade. 'O fluxo silencioso das máquinas' (Ateliê Editorial, 2002), de Bruno Zeni, para mim o melhor autor da atualidade, não tem nada de realismo. São descrições de rostos dos usuários do metrô", comenta.  

        E a literatura de Bonassi também não pode ser facilmente inscrita em um estilo. A maneira como ele escreve, muitas vezes sem dar nome aos personagens, pouca descrição, frases curtas, que lembram uma poesia crua, lembra muitas vezes o cinema, ou até letras de músicas. "Gosto dos personagens em ação com uma descrição bem enxuta. Não gosto de narradores oniscientes, não acredito nisso. O leitor é que deve fazer suas escolhas e criar suas opiniões", afirma.

        Os próximos planos de Bonassi são um livro infantil, "Declaração Universal da Menina Esquisita", e a participação num projeto editorial que pretende contar várias histórias sobre lugares que estão sumindo em São Paulo, como os parques de diversões, locais que o escritor vai transformar em livro.