A incorporação definitiva do Banco Nossa Caixa pelo Banco do Brasil começou ontem (dia 1o.). Em entrevista coletiva em São Paulo o presidente da Nossa Caixa, Demian Fiocca, e o diretor do BB para São Paulo, Dan Conrado, apresentaram os planos para o Estado.
Ao longo de 2010, 83 agências adicionais serão abertas no Estado, sendo que cada uma consumirá R$ 1 milhão. Nove já estão em processo de instalação. Serão contratados 1,5 mil funcionários.
Em fevereiro, as agências da Nossa Caixa, comprada pelo BB em novembro de 2008, começam a ser integradas pelo BB. O processo deve terminar em outubro do ano que vem.
Estratégia
O Banco do Brasil passará a ter 1.334 agências no Estado de São Paulo e afirma que será a maior instituição bancária no estado. Em Bauru são 12 agências com a incorporação contra dez do Itaú/Unibanco.
Com o projeto batizado de Estratégia São Paulo o BB investirá cerca de R$ 800 milhões no Estado nos próximos cinco anos.
O dinheiro será usado para renovação do parque tecnológico (envolvendo as instalações da Nossa Caixa), abertura de mais agências e melhora da infraestrutura geral do banco em São Paulo, o que inclui a contratação de mais funcionários.
O BB criou para o Estado uma diretoria própria. No comando, ficará Dan Conrado e mais um superintendente estadual da Capital. Outro cuidará de Campinas. Haverá, ainda, um para Ribeirão Preto e outro para Bauru. Segundo a assessoria de imprensa do banco, o superintendente da cidade deve chegar na próxima semana e não teve o nome escolhido.
Além deles, o BB terá um superintendente para setor público (para lidar com prefeituras, governo estadual e Poder Judiciário) e outro executivo designado apenas para a infraestrutura. Demian Fiocca deixa o cargo.
Segundo Dan Conrado, o objetivo da reestruturação em São Paulo é fazer com que a participação do Estado nos resultados do banco passe dos atuais 25% para 35% dentro de dois anos.
Sindicato teme demissões
Segundo disse ontem o presidente da Nossa Caixa, Demian Fiocca, não haverá fechamento de unidades, pois, segundo ele, a “redundância é praticamente inexistente”. Em alguns casos, agências próximas serão transformadas em unidades Estilo, direcionada a clientes de maior renda.
O diretor do Sindicato dos Bancários de Bauru e Região (ligado a Conlutas), Marcos Lenharo, disse, no entanto, não estar tão confiante. “Há agências do BB e da Nossa Caixa muito próximas e o banco não informa claramente aos trabalhadores se haverá ou fechamentos”, disse.
Um PDV (Programa de Demissão Voluntária) para os funcionários da Nossa Caixa foi implantado em novembro.
Segundo Lenharo, hoje começa também a abertura do prazo para a migração da nova estrutura salarial do BB para os funcionários da Nossa Caixa. “Estamos orientando aos bancários a não aderirem, há pouca informação e os planos de carreira dos dois bancos são diferentes”, disse.
O sindicato afirma que a Nossa Caixa tem cerca de 300 bancários em Bauru e o Banco do Brasil aproximadamente 150.
Os governos Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra acertaram, há um ano, a venda da Nossa Caixa para o BB por R$ 7,6 bilhões - incluindo o dinheiro que foi para os cofres do Tesouro estadual e o que foi pago aos acionistas da Nossa Caixa.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
BB vai abrir 83 agências no Estado após incorporação
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Dias de treinamento
A PM (Polícia Militar) deve treinar para matar ou não? Essa foi a pergunta inicial que o coronel Nilson Giraldi, 76 anos, fez a mim e a mais seis jornalistas que nesta semana conheceram e fizeram o atual treinamento de tiro da PM.
Foram dois dias de aulas em Bauru na sede do CPI-4 (Comando de Policiamento do Interior 4). Lá funciona o Centro de Treinamento na Preservação da Vida, local onde o coronel Giraldicomeçou a inventar há 30 anos um método de tiro que leva seu nome.
Há 12 anos a PM começou a adotar essa prática no Estado com a missão de tentar mudar um comportamento de décadas da corporação que matou milhares de bandidos, os próprios policiais e inocentes. “O disparo deve ser a última alternativa, o policial deve aprender o que é de fato a legítima defesa”, fala.
No começo parece contraditório que um treinamento de tiro possa facilitar a preservação da vida, mas Giraldi ensina que em um confronto armado há muitas possibilidades de erros que podem ser evitados com o condicionamento de boas práticas.
Novos alvos
Nosso treinamento começa com disparos em alvos, ou seja, aprender a atirar. A mudança de paradigma no método Giraldi inicia aí – os alvos não simulam silhuetas humanas, como o antigo alvo Colt que pontuava mais os acertos na cabeça e no coração. O alvo que utilizamos é apenas um retângulo branco com outro retângulo cinza menor dentro. A meta procurada é apenas acertar o retângulo cinza o mais próximo possível de seu centro.
A segunda fase do treinamento simula uma área de confronto armado com paredes, muros e cômodos com várias curvas. Os alvos de papelão agora representam pessoas – os bandidos armados ou não, inocentes na área de tiro e reféns sob ameaça de bandidos.
A ação começa com a palavra “perigo”gritada pelo instrutor. Somos orientados a ficar com o dedo fora do gatilho em todo o percurso. Para Giraldi o policial que mantém sempre o dedo no gatilho acaba atirando no que não deve. A pista de alvos mostra que isso é verdade, de surpresa aparecem alvos móveis, como o de um morador da fictícia área de confronto ou mesmo um jornalista cobrindo a ocorrência. Vários colegas 'mataram' inocentes.
Meu instrutor, o 2o. sargento Carlos Cesar Rodrigues, 40, acompanha minha passagem de perto e pára a instrução em cada erro que cometo. Cada falha é explicada e eu tenho a chance de repetir de uma forma correta quantas vezes foram necessárias. “O policial erra aqui dentro para não falhar numa situação real”, diz.
Outra característica do treinamento é uma espécie de teatro da negociação. Em cada alvo de papelão que eu encontro o instrutor simula uma voz, por exemplo, se o alvo mostra um bandido apontando uma arma para o refém o instrutor inventa uma fala do bandido para colocar mais tensão e realismo. Cabe ao aluno iniciar uma negociação na hora, pedir calma com educação e resolver a situação sem disparos, já que a vida do refém está em jogo.
Os tiros contra bandidos devem ser feitos apenas quando estes estão sozinhos e apontam a arma na direção do aluno. Para Giraldi um disparo de arma de fogo dentro da legalidade deve obedecer quatro princípios: necessidade; ser oportuno; proporcionalidade (2 tiros por vez); e qualidade. “O policial que obedece essas regras não é condenado por tribunais”, afirma.
Para o comandante do CPI-4, coronel José Guerra Júnior, o método de Tiro Defensivo de Preservação da Vida tem seu segredo na simplicidade e facilidade de execução. Hoje as unidades da PM trocam pela internet as figuras dos alvos e suas orientações, quem recebe só precisa imprimir e colar em uma placa de papelão. “Uma vez por ano os policiais voltam para o quartel e recebem todo esse treinamento de novo, o preparo mais humano se traduz em mais eficácia”, fala Guerra.
Segundo Giraldi a maior dificuldade que seu método enfrenta é vencer os velhos hábitos da PM. Ele explica que a instituição foi criada com uma doutrina semelhante a do Exército, que prega a eliminação do inimigo, e que durante a ditadura militar foi aplicada por alguns setores da polícia.
A nova doutrina defendida por Giraldi já tem resultado práticos. Segundo ele, antes de seu método a cada dez ocorrências envolvendo reféns no Estado de São Paulo em média nove terminavam com mortes. Hoje esse número está próximo do zero.
O método Giraldi já é adotado em maior ou menor grau em todos os Estados brasileiros, com exceção do Rio de Janeiro. O método já foi oficialmente reconhecido pela ONU, Comitê Internacional da Cruz Vermelha, dos Direitos Humanos e do Policiamento Comunitário.
Fim das pescarias
Nascido em Lins, o coronel conta que serviu o Exército com 18 anos e logo em seguida ingressou na Força Pública, antigo nome da PM. Começou sua carreira como soldado. Ele não tinha outros parentes na polícia. “Na época era um desprestígio ser policial, entrei sem minha família saber, mas precisava, não tinha pai e era pobre. Só com o tempo tive o reconhecimento deles”, fala.
Seu alistamento foi na cidade de São Paulo. Por dezoito anos serviu em São Paulo e depois em Bauru e Jaú. Foram 35 anos atuando e há 25 anos ele está na reserva. Giraldi também foi competidor de tiro esportivo e conseguiu 45 títulos brasileiros de tiro, oito internacionais e três recordes mundiais.
Ele conta que a iniciativa de criar um novo método de treinamento para a polícia surgiu ainda na ativa, quando percebia que quase todas as tragédias envolvendo ocorrências policiais poderiam ter sido evitadas. “Em quase todo mundo as forças policiais importavam a instrução de tiro das Forças Armadas, o que de forma alguma é correto para a polícia que serve a comunidade”, diz.
Um amigo seu, o tenente José Alfredo Cintra, na época com 21 anos, participando de um confronto armado em Bauru com dois bandidos, foi atingido no coração pelo disparo de um agressor e antes de morrer ele conseguiu atingi-lo e matá-lo. O outro fugiu.
A tropa consolou Giraldi dizendo que pelo menos o tenente morreu, mas levou um com ele. “Respondi que era melhor os dois estarem vivos”, fala. Para ele sempre quando há uma vítima, seja qual for o lado, a polícia perde.
Na elaboração do método ele diz ter estudado as neurociências para aprender como o cérebro humano funciona diante da morte. Foram também entrevistados policiais que enfrentaram confrontos armados, tanto os na ativa como aqueles que estavam presos por usarem incorretamente suas armas. Além disso, ocorrências que terminaram em mortes de policiais foram estudadas para conhecer suas falhas.
Nessa fase ele lembra que sua experiência de exímio atirador foi deixada de lado. Ele explica que uma das razões para tantas mortes no confronto policial foi transformá-lo em uma simples competição de quem atira melhor.
As idéias de Giraldi começaram a ser aplicadas em São Paulo logo após o caso da Favela Naval em Diadema. Nos dias 3, 5 e 7 de março de 1997 moradores do local foram espancados e mortos por policiais militares. Na época o Jornal Nacional mostrou em rede nacional o soldado Otávio Lourenço Gambra, o Rambo, atirando em Silvio Calixto de Lemos já caído depois de apanhar.
O caso ganhou repercussão mundial e a força policial de São Paulo foi pressionada a mudar de conduta. Giraldi no mesmo ano foi convocado por seu estudo contra a violência para ajudar a PM e aos poucos ele foi sendo usado pela polícia. Hoje ele viaja pelo Brasil inteiro e diversos países para mostrar suas idéias. “Com isso acabei perdendo minha aposentadoria e não tenho mais sossegado para pescar”, brinca.
Sobre a morte do mecânico Jorge Luiz Lourenço, 22 anos, alvejado no dia 5 de abril de 2007 por policiais militares após furar um bloqueio policial, Giraldi não comenta, diz que só avalia após ser julgado. Mas na atuação policial em geral ele afirma que o policial tem que evitar a precipitação e a valentia perigosa. “Essas condutas em excesso são uma loteria, podem transformar o policial num herói, defunto ou presidiário”, fala.
Para ele o personagem do capitão Nascimento mostrado no filme “Tropa de Elite” é um péssimo exemplo de policial. “O filme só mostra duas policias, corrupta ou violenta. Isso não existe felizmente, os erros são exceções”, fala.
Giraldi também condena a população por muitas vezes manifestar a preferência por uma polícia violenta que mate, mas atribui isso a impunidade, já que apenas 1% dos autores de homicídio, estupro e roubo cumprem pena.
Ele é casado há 45 anos com Ivone, tem três filhas e vários netos. Ele agradece a mulher por sua compreensão e ajuda no seu trabalho. As mãos dos alvos que simulam pessoas do métodoGiraldi foram feitos por sua mulher, usando como molde a mão feminina. O símbolo do método, que é uma pomba em um triângulo, foi criado por sua filha caçula, que é designer.
O tiro
Nunca tinha encostado a mão em um revólver. Comecei logo com um calibre 38 de cano longo. O peso da arma impressiona, além disso somos obrigados a usar colete a prova de balas, óculos de proteção, abafadores no ouvido e um cinto para carregar o coldre.
A sensação na área de tiro é de apreensão e muito calor. Distante cerca de quatro metros do alvo parece que é fácil acertar. O primeiro tiro acerta o alvo, mas muito distante do centro. Controlar a empunhadura firme da arma é muito difícil. As duas mãos precisam segurar forte o cabo do revólver. E também somos orientados a fazer tudo corretamente, ou seja, o saque no coldre tem que ser sem olhar.
O tranco da arma não chegou a me impressionar. Os instrutores explicaram que armas com um calibre maior chegam a derrubar, mas um revólver 38 se for segurado corretamente não é tão forte.
Durante o tiro outra preocupação é encontrar a alça de mira no alto do cano do revólver e alinha-la com o alvo. Com calor, tensão e a preocupação com tantos detalhes a maioria dos jornalistas só começou a atirar num nível razoavelmente aceitável só no décimo tiro para a frente.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Região tem 121 vagas sem preenchimento, afirma Sert
Conseguir um emprego é um sonho comum para milhares de pessoas. Mas nem sempre o que falta é exatamente oportunidade.
Segundo a Sert (Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho), existem mais de 100 vagas em Bauru e região com dificuldade de preenchimento.
Até esta segunda-feira eram 52 vagas na cidade de Bauru e mais 69 na região (121) à espera de candidato. Algumas, como para operador de máquinas-ferramenta convencionais, estão abertas desde agosto.
O diretor regional do PAT (Posto de Atendimento ao Trabalhador) de Bauru, Alexandre Ciro Perin Bertoni, afirma que o motivo principal para essas vagas ociosas é a falta de qualificação. “As empresas adotam cada vez mais critérios rigorosos na seleção. O conhecimento técnico ou experiência são muito requisitados hoje em dia”, diz.
Ele conta também que em outubro a Sert teve 537 anúncios de emprego na região e 1.638 candidatos, porém, apenas 64 conseguiram ficar com o emprego.
Carteiro é o mais procurado
A vaga mais sem encaminhamento em Bauru atualmente é para carteiro (24 oportunidades). Não se trata do profissional da ECT, mas sim de entregas para uma empresa privada. As demais cinco vagas mais oferecidas e não preenchidas se dividem entre profissões com formação técnica e até mais simples – engenheiro químico (5), marceneiro (5), faxineiro (3), assistente de vendas (2) e chefe de cozinha (2).
Alexandre Bertoni explica que as profissões que teoricamente não exigem muita qualificação também costumam ter algumas dificuldades. “É o segundo motivo para não preenchimento de vagas: a empresa oferece salário ruim ou exige demais do funcionário. Aí, fica sem preencher mesmo”, afirma.
Na região há vagas sem preenchimento como para atendente de lanchonete (4), operador de máquinas operatrizes (3), padeiro (3), assistente de vendas (2), faxineiro (2), masseiro (massas alimentícias) (2) e mecânico de manutenção de máquinas, em geral (2).
Emprega São Paulo é porta de entrada
A Sert divulga que oferece gratuitamente uma série de ferramentas e cursos para procurar empregos e melhorar a capacitação dos trabalhadores.
A porta de entrada para esses serviços é hoje o Emprega São Paulo – uma ferramenta gratuita de oferta e busca de vagas de trabalho pela internet.
É o novo sistema utilizado em todos os PAT (Postos de Atendimento ao Trabalhador). O candidato tem a opção de ir pessoalmente até um PAT, onde será atendido por um funcionário, ou pode fazer o cadastro sozinho, pela internet.
O Emprega São Paulo encaminha os candidatos para cursos em áreas como vendas, administração, indústria, construção civil, telemarketing, limpeza, informática, segurança e atendimento ao cliente.
As aulas gratuitas têm duração máxima de três meses e são ministradas em unidades do Centro Paula Souza, Senai e Senac.
Para o segundo semestre de 2009 são mais de 41 mil vagas com bolsa-auxílio de R$ 210 mensais.
Saiba mais
Emprega São Paulo: www.empregasaopaulo.sp.gov.br
PAT em Bauru: rua Joaquim da Silva Martha, 11-39, ou no Poupatempo - avenida Nações Unidas, 4-44, Centro (esquina com a Rua Inconfidência)
Senac: avenida Nações Unidas, 10-22
Senai: rua Virgílio Malta, 11-22
Centro Paula Souza: rua Virgílio Malta, quadra 12
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Espelhos que se entrecruzam
No começo de outubro de 2004, você deve ter visto alguma notícia na TV, internet, rádio ou jornal a respeito da possibilidade de o Universo ter a forma de uma bola de futebol. Toda essa discussão vem de uma pesquisa da radiação de microondas cósmicas, isto é, a radiação resultante do Big Bang (explosão que teria dado origem a tudo), e esse estudo tem mostrado que o Universo pode ser finito e ter o desenho de um dodecaedro, uma figura geométrica sólida com doze faces e semelhante à bola do esporte mais popular do mundo. Pronto, apareceu a manchete que todo o editor de esportes pedia para Deus: “O Universo inteiro é uma grande bola de futebol”.
Fiquei sabendo também que Platão na Grécia Antiga e Leonardo da Vinci no Renascimento afirmavam a mesma coisa, o cosmos teria o formato de um dodecaedro. Porém, o que mais me interessou foi outra coisa: as faces desse Universo geométrico podem ser como espelhos. Segundo essa teoria, se você pudesse viajar por todo o Universo, de ponta a ponta, ao final retornaria pela face oposta à que "saiu". É como uma imensa sala de espelhos, eu olho para esquerda, direita, frente ou atrás e vejo a mesma coisa. Uma vez que o Universo não seria infinito, então todas as imagens observadas seriam reflexos da mesma sala onde reside o observador.
Desculpe se fundi sua cuca, caro leitor. Porém, tive uma boa razão para fazer isso – a literatura também se serve de toda essa abstração e imaginação da astrofísica. Veja, por exemplo, Poe e Borges com suas histórias que se assemelham a um jogo de xadrez, a uma operação lógica. E mais relacionado a essa teoria do “Universo espelhado” existe um conto excelente do italiano nascido em Cuba por acaso, Italo Calvino (1923-1985), “Numa rede de linhas que se entrecruzam”, uma parte do livro “Se um viajante numa noite de inverno” (1979).
“Numa rede de linhas que se entrecruzam” é um dos maravilhosos romances propositalmente inacabados que Calvino espalha pelo seu livro. Conta a história de um homem de negócios obcecado por espelhos, não por vaidade, mas porque encontra na geometria dos reflexos a própria lógica da vida. Ele observa os desenhos formados por caleidoscópios em busca de procedimentos a serem seguidos, decisões práticas e previsões arriscadas.
Cita filósofos e pensadores que também compararam os padrões das imagens refletidas com a existência, como Plotino (205-270): “a alma é um espelho que cria as coisas materiais refletindo as idéias de uma razão superior”. Fascina-se com as máquinas catóptricas do século XVII, pequenos teatros de vários tipos em que se vê uma figura multiplicar-se segundo a variação do ângulo formado pelos espelhos. Transformam “um galho em floresta, um soldadinho de chumbo em exército, um livrinho em biblioteca”.
Ele constrói um império financeiro seguindo o mesmo princípio dos caleidoscópios e das máquinas catóptricas, multiplicando como num jogo de espelhos as sociedades sem capital, inflando os créditos, fazendo sumir os passivos desastrosos no ângulo morto das perspectivas ilusórias. Jamais pensava diretamente no dinheiro, nos negócios, nos lucros, mas apenas nos “ângulos de refração que podem formar-se entre superfícies brilhantes com inclinações diferentes”. Porém, obtém tanto poder que se vê ameaçado por seqüestros, tanto pelas quadrilhas especializadas como pelos seus sócios e concorrentes no mundo das finanças. A saída que encontra é o mesmo padrão dos jogos de espelhos, reproduziu sua presença, saídas e retornos, encomendou cinco Mercedes iguais a sua para despistar a todos. Assim como criou falsas empresas, falsas reuniões, falsas amantes, e depois até falsos seqüestros e falsos resgates.
Maravilhado com tratados de ciências ocultas e anátemas dos inquisitores a respeito do poder dos espelhos, o homem de negócios sonha: “De espelho em espelho – acontece-me às vezes sonhar – a totalidade das coisas, o Universo inteiro, a sapiência divina poderia concentrar enfim seus raios luminosos num único. Ou talvez o conhecimento do todo esteja sepultado na alma e um sistema de espelhos que multiplicasse minha imagem até o infinito e restituísse sua essência numa imagem única me revelasse a alma do todo que se esconde na minha.”
Hoje a própria tecnologia diz que realmente existe a probabilidade de todo o cosmos ser uma incomensurável sala de espelhos. É como se as artes, a filosofia e a ciência chegassem ao mesmo dilema: o que é o real?, ou pior, como diferenciar o real de suas imagens refletidas? Na literatura, o personagem de Calvino acaba se perdendo nas previsões e manipulações criadas por ele nos jogos de espelhos, não consegue antever todas as hipóteses e reflexos da vida.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Bolsa vive boa expectativa para 2010
A euforia com o Brasil e o enfraquecimento global do dólar fizeram o Ibovespa (Índice da Bolsa de Valores de São Paulo) atingir nesta semana o maior nível em 15 meses, com mais de 67 mil pontos. A pontuação do Ibovespa aumenta na medida em que sobe o valor das ações.
A Bolsa foi um dos investimentos que melhor se recuperou da crise financeira mundial, que teve o marco inicial na quebra do banco norte-americano Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008.
O chefe de análise da Planner Corretora e vice-presidente do Apimec-SP (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais), Ricardo Tadeu Martins, trabalha com uma expectativa de alta na Bolsa para os próximos meses e em 2010, embora reconheça que a grande alta recente talvez tenha sido exagerada e sofra alguns ajustes, principalmente agora com o novo IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre capital externo na Bolsa. “Mas temos que analisar a Bolsa sempre num prazo mais extenso, de longo prazo. Para 2010, 2011, 2012, o Brasil deve receber uma série de investimentos que vão ajudar muito a economia”, comenta.
Ricardo ficou em 8º lugar, classificado entre os 10 melhores analistas de ações em 2008, em levantamento realizado pelo Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais) São Paulo, encomendado pela Agência Estado.
Para exemplificar, ele cita a evolução natural da economia depois da crise, com crescimento do PIB projetado para 2010 de 4,8% segundo o Banco Central. Muitos investimentos postergados por causa da crise vão ser retomados com a recuperação brasileira e internacional. Além disso, num horizonte mais longo, são aguardados os investimentos que vão dar sustentação a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
Ricardo opina que a queda do mercado norte-americano foi muito bem assimilada no Brasil. “O governo percebeu que se não for fominha na questão tributária ele pode viabilizar mais investimentos, consumo e empregos, tanto é que a isenção do IPI para linha branca está sendo prorrogada”, diz.
Para Ricardo, o investidor estrangeiro está ciente de todos esses trunfos brasileiros e além disso sabe que o país tem indicadores econômicos de resultados iguais ou melhores que países como China, Índia ou nações desenvolvidas mais atingidas pela crise, como a Alemanha e França.
Terceira nota
Por isso, muitos recursos estrangeiros trocaram de portfólio, de país. Isso foi ainda mais estimulado para o Brasil quando, no fim de setembro, o Brasil foi coroado com a terceira nota de grau de investimento - seleto grupo de países considerados de baixo risco para se investir - pela agência de classificação de risco Moody's. Segundo os analistas os investimentos de maior peso só chegam a um país depois da terceira nota.
A primeira agência de classificação de risco a considerar o Brasil “investment grade” foi a Standard & Poor's, em 30 de abril de 2008. Em seguida, foi a vez da Fitch Ratings, em 29 de maio do ano passado.
Para Ricardo, se a Bolsa tiver pequenas baixas de 1% ou 2% isso não será motivo de temor porque as altas recentes foram muito expressivas e os volumes negociados voltaram a patamares anteriores da crise. “As quedas são bem absorvidas. Por dia o volume médio de negócios é de R$ 5,4 bilhões e na semana passada tivemos R$ 6,6 bilhões. Não adianta nada a Bolsa subir, mas com volumes pequenos de negócios”, comenta.
Ele pondera também que não há nenhum fato esperado para o futuro próximo que faça as Bolsas oscilarem drasticamente no mundo. Os bancos norte-americanos já divulgaram resultados do terceiro trimestre que mostram resultados consistentes, que foi onde justamente surgiu a crise.
Apenas causas políticas na opinião de Ricardo poderiam causar mudanças exageradas nos mercados. Sobre a campanha presidencial no Brasil em 2010, ele pondera que o mercado financeiro é sim atingido negativamente ou positivamente, mas que os efeitos mais severos não estão mais na Bolsa ou no dólar, mas nos juros. “Eles [juros] podem oscilar porque a questão fiscal do Brasil está se deteriorando e existe a incerteza sobre a candidatura ou não do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ao governo ou Senado”, comenta.
Para Ricardo, atualmente não há sinais que os fluxos de capitais estrangeiros podem procurar outros países. Ele compara a Bolsa de Valores brasileira negociando R$ 6 bilhões por dia e a mexicana apenas R$ 1 bilhão. “Nosso país tem liquidez. No período recente o investidor tirou dinheiro do Brasil apenas porque precisava cobrir buracos de outros países sem liquidez”, analisa.
Mantega diz que taxação de capital quer evitar nova ‘bolha’
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o objetivo do governo, ao taxar os investimentos estrangeiros na Bolsa de Valores e nas aplicações de renda fixa em 2% sobre o IOF, é evitar uma "bolha" na bolsa e a sobrevalorização do real, o que, segundo ele, poderia “causar danos para a produção brasileira”.
“Nossa preocupação não é a arrecadação. Este é um imposto regulatório e tem como objetivo equilibrar a entrada de capitais externos na economia brasileira e evitar excessos, de modo a não causar uma bolha na bolsa de mercadorias, nem uma sobrevalorização do real”, disse o ministro em entrevista para a Agência Brasil.
Mantega avisou, porém, que as medidas adotadas não devem evitar alguma valorização do real e reforçou que o risco está na sobrevalorização da moeda. “Acredito que [as medidas] não vão evitar a valorização do real porque ele reflete a força da economia”, avaliou. “E o Brasil é uma economia forte. Portanto, a moeda é forte.” O ministro alertou para o fato de que o real não pode se fortalecer demais sob o risco de enfraquecer a atividade produtiva. Segundo ele, é necessário um certo tempo para que as medidas adotadas surtam efeito. “O que colocamos foi um pedágio para a entrada excessiva [de dólares].”
Nos anos 90, o governo passou a cobrar IOF de 5% sobre capital estrangeiro que entrasse no País. A alíquota chegou a 9% e voltou a ser reduzida antes de ser eliminada, em 1999.
Segundo Ricardo Denadai, economista sênior do Santander Asset Management, esta medida pode trazer insegurança aos investidores estrangeiros, especialmente no mercado de ações, em relação às regras do jogo. Vale a pena lembrar que o mercado de ações está sendo uma importante fonte de financiamento do investimento das empresas. A economia brasileira tem uma necessidade enorme de investimentos privados, especialmente agora com a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos, em 2016.
Adicionamente, a medida pode ser ineficaz, pelo fato de a apreciação do Real, na nossa avaliação, ser uma conseqüência da depreciação do dólar em todo o mundo e do sucesso do Brasil, pois é hoje uma das economias mais bem posicionadas, com perspectivas fortes de recuperação, sustentadas pela sua demanda interna (mercado de trabalho forte e expansão do crédito).
"Avaliamos que mesmo com essa medida, a tendência do Real é a de valorização e que o melhor seria focar nas relações de comércio externo e ganhos de produtividade dos nossos setores de exportação", diz Denadai.
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Mesmo potência, Bolsa ainda atinge apenas 7% do Brasil

A BM&FBovespa S.A. (Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros) foi criada em 2008 com a integração entre BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros) e Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo).
Juntas, as companhias formam uma das maiores bolsas do mundo em valor de mercado, a segunda das Américas e a líder no continente latino-americano. É atualmente a quarta maior bolsa do mundo atrás apenas das bolsas de Hong Kong, CME Group (Chicago) e Deutsche Boerse (Eschborn/Alemanha). Por dia o volume médio de negócios da BM&FBovespa é de R$ 5,4 bilhões. Seu lucro líquido no 2º trimestre de 2009 foi de R$ 325 milhões.
Mesmo com toda essa potência, a BM&FBovespa e corretoras calculam que apenas cerca de 7% da população ou 12 milhões de brasileiros investem ou conhecem a Bolsa, sendo que pessoas físicas investindo são só aproximadamente 600 mil pessoas e o conjunto total de investidores em diversos fundos somam 7 milhões.
Popularização
Para tentar mudar isso a BM&FBovespa realiza periodicamente cursos gratuitos para explicar seu funcionamento e realiza visitas a escolas e empresas. Recentemente, foi criado o Programa de Educação Financeira, realizado em parceria com a TV Cultura, exibido de segunda a sexta, às 7h15 e aos sábados, às 10h15. Trata-se de uma iniciativa pioneira no país em prol da popularização do mercado de capitais, da economia, finanças pessoais e tipos de investimento.
Os especialistas da Bolsa esclarecem que se trata de um investimento de risco, mas com alta rentabilidade se o investidor encarar aplicar ao longo prazo, tiver uma diversidade de ações e fizer compras periódicas no mercado.
Sobre as orientações para o investidor, o analista Ricardo Martins afirma que primeiro ele deve ter bem claro qual é seu horizonte na Bolsa. “Se ele focar o curtíssimo prazo para aproveitar as oportunidades de entrada e saída de capitais rápidas no Brasil, ele tem que estar muito atento, muito bem subsidiado pela corretora que o apóia. Mas se o horizonte do investidor for longo, por anos, como praticamente um sócio da empresa da qual adquire as ações, ele tem que aguardar os dividendos anuais dos lucros”, explica.
A valorização do Ibovespa, que aumenta na medida em que sobe o valor das ações, de 1968 a julho de 2008, rendeu 37 vezes o valor investido. Muito superior a qualquer investimento de renda fixa, como a poupança.
São 433 empresas hoje na BM&FBovespa, sendo que algumas são “blue chips”, isto é, ações de grande liquidez (grande quantidade de negócios) e mais procuras no mercado. São elas Petrobras, Vale, Itaú Unibanco, ações da própria BM&FBovespa, Bradesco, Gerdau, CSN e Usiminas. O preço das ações, chamado no mercado de “cotação”, oscila conforme a expectativa dos investidores em relação à companhia. Uma ação pode valer menos de R$ 1 ou mais de R$ 40.
Conheça mais
Site: www.bovespa.com.br
Investimento em tecnologia é de R$ 116 milhões
Em 2009, a BM&FBovespa está investindo R$ 116 milhões no desenvolvimento de projetos de tecnologia. Um dos carros-chefe é o sistema Mega Bolsa, que possibilita às corretoras enviarem em tempo real suas ordens de compra ou venda diretamente de seus escritórios, localizados em qualquer parte do Brasil, para a BM&FBovespa.
Mundialmente conhecido como NSC, o Mega Bolsa é utilizado por mais de 20 bolsas de valores em todo o mundo. Ele reproduz na tela o ambiente de negócios, exibindo os registros de ofertas e propiciando o fechamento automático das operações.
Com a finalidade de oferecer o máximo de segurança nas operações realizadas em seu sistema de negociação, a Bolsa as acompanha minuciosamente. Além disso, exige limites e garantias para a execução dessas operações.
A CBLC (Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia) administra o risco que essas operações podem associar aos mercados, estabelecendo limites operacionais para os Agentes de Compensação; estes, por sua vez, às Corretoras; e as mesmas a seus clientes.
Os limites operacionais são estabelecidos de acordo com as respectivas capacidades de liquidação das operações. Esses limites podem ser aumentados diariamente por meio do depósito adicional de garantias.
Entenda mais
Ações – são títulos negociáveis que representam, para quem as possui, uma fração do capital social de uma empresa. É um pedacinho dela
Companhia aberta – quando uma empresa decide abrir seu capital ela promove a colocação de valores mobiliários em bolsas de valores. As empresas fazem isso para obter dinheiro e crescer mais
Dividendos – são uma parcela de lucro líquido distribuída aos acionistas (donos das ações), na proporção da quantidade de ações que eles possuem. As empresas devem distribuir por lei no mínimo 25% de seu lucro líquido
Corretoras – são instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central e pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários). São elas que executam operações de compra e venda de ações. A lista de todas as corretoras brasileiras está no site http://www.bovespa.com.br/Corretoras/index.asp?Corr=membros
Clubes de investimento – é uma opção para participar do mercado de ações em um grupo de amigos, vizinhos, colegas de trabalho etc. Cada pessoa reserva uma parte de suas economias para aplicar em conjunto
Home broker – é um instrumento que permite a negociação de ações via Internet. Ele permite que você envie sozinho ordens de compra e venda de ações através do site de sua corretora na internet. Informações em www.homebroker.com.br
Fonte: BM&FBovespa
Paulão tem saudade dos gritos e amizade
Paulo Roberto da Silva, 56 anos, o Paulão, hoje é assessor comercial da corretora Planner na capital. Ele começou na Bolsa aos 18 anos e um ano depois foi a trabalhar como operador, em 1973. Na época o pregão utilizava uma grande lousa negra para escrever a maioria das cotações das ações com giz e um pequeno quadro eletrônico começava a ser introduzido na rotina de trabalho. “Fechávamos o negócio na palavra, no boca-a-boca, consumávamos a transação por escrito em um papel com carbono e alguém na Bovespa transmitia esses dados para a visualização de todos nos painéis”, conta.
Depois essas anotações com carbono foram substituídas por cartões que lembravam cupons de loteria, que eram preenchidos com lapiseiras e lidos em seguida por leitores ópticos. As informações então ficam disponíveis em sistemas de computadores e mostradas em painéis.
Atualmente, todas as transações da BM&FBovespa são controladas pelo sistema Mega Bolsa. “No pregão viva-voz nosso recorde foi de 25 mil negócios num único dia. Nesse novo sistema o recorde é de 582 mil negócios num único dia”, explica.
Mas mesmo com todos os benefícios da tecnologia, Paulo diz ter saudades de participar ou ver o contato humano de um pregão viva-voz – época que entrou para o imaginário das pessoas com as cenas de centenas de operadores negociando ações na base do grito. Ele afirma ter passado “os melhores dias de sua vida naquele dia-a-dia da Bolsa”.
“Era como se você fosse um feirante e todo o dia tendo que conviver com seu companheiro de feira, cada um vendendo seu peixe. Todos disputando o negócio, o cliente, mas com grande companheirismo e respeito muito grande. Isso das 10 da manhã às 5 da tarde com o número máximo de 1.500 operadores”, lembra.
Com o advento das tecnologias da informação, o pregão da Bolsa foi se esvaziando. Cada operador foi trabalhar em escritórios em locais diferentes de São Paulo. O pregão da Bolsa teve três espaços físicos famosos – a partir de 1934 no Palácio do Café, no Pátio do Colégio em frente ao Palácio do Anchieta, em 1972 na rua Álvares Penteado e em 1985 foi transferido para o antigo banco Comind (Banco de Comércio e Indústria do Estado de São Paulo) na Praça Antonio Prado.
No final dos anos 90, o pregão começou a ser dividido, somente os principais papéis eram negociados no viva-voz e a maioria das ações passou a ser negociada no pregão eletrônico. Em 2005 o pregão viva-voz acabou definitivamente na Bovespa e em julho de 2009 na BM&F.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Jazz, rock, bolso vazio e uma piscina

Por aqui o iconoclasta guitarrista norte americano Frank Zappa (1940-1993) não é lá muito conhecido. É bem razoável entender porque - ele definitivamente não foi um compositor e músico convencional, desses que o rádio e a TV idolatram por terem um rostinho bonito ou um refrão bobinho.
O bigodudo Zappa fazia grandes músicas, tanto pelos vários minutos que duravam como pela fusão com vários elementos da música popular e erudita. O fã de outro maluco da música, o russo Stravinsky, buscou criar músicas que são consideradas pioneiras de novos estilos.
Um de seus trabalhos foi “Hot Rats” (1969), que está completando 40 anos. Ele já havia lançado discos fantásticos como “Freak Out!” (1966) e “We´re Only In It For The Money” (1968) ao lado da banda que liderava, a Mothers Of Invention. Mas Zappa estava duro. Todo mundo elogiava seu trabalho, mas comprar que é bom, necas.
Foi aí que ele tomou uma decisão sábia: fazer um trabalho menos comercial ainda. Dizem que ele foi inspirado por uma história que presenciou com a lenda Duke Ellington, um dos deuses do jazz. Zappa teria presenciado Duke Ellington implorando um adiantamento de meros 10 dólares para os executivos da Reprise, a gravadora deles, e não ser atendido. Revoltado, Zappa mandou a gravadora catar coquinho e foi criar um trabalho novo por conta própria.
Ele foi atrás de grandes músicos - os violinistas Don Harris e Jean-Luc Ponty, John Guerin e Paul Humphrey na bateria, o tecladista e saxofonista Ian Underwood e o amigo Don Van Vilet, conhecido como o vocalista Captain Beefheart. Juntos criaram o “Hot Rats”, disco quase totalmente instrumental. A exceção é a faixa “Willie The Pimp”, com os vocais característicos e chapados de Captain Beefheart.
As seis longas faixas do disco foram compostas por Zappa. Ele não gostava de jornalistas e de suas definições simplórias, mas esse foi um trabalho pioneiro da fusão do rock com o jazz. Os excelentes músicos tocam como numa jam, improvisando e muito soltos.
“The Gumbo Variations”, por exemplo, é um rhythm and blues com mais de 16 minutos de duração, uma experiência musical sensacional com Paul Humphrey e Ian Underwood em solos fabulosos. “Peaches en Regalia” é, vamos dizer assim, o hit do disco, muito presente em qualquer coletânea de Zappa, muito furiosa e feliz ao mesmo tempo. “Willie The Pimp” tem “só” o vocalista visceral Captain Beefheart e um solo de sete minutos de Frank Zappa que faz inveja a qualquer guitarrista vivo hoje no planeta Terra.
Toda essa doideira, segundo a banda, foi gravada em um gravador “caseiro de seis canais”, sendo que no meio musical alguns afirmam que este é o primeiro disco gravado em seis canais a ser lançado comercialmente. O comum eram apenas quatro.
Essa criatividade chapada, sem grana e caseira está na arte do disco também, com fotos da banda descabelada e largada. Mas vale dizer que a foto da capa dos ‘Ratos Quentes’ não é o Zappa, como eu e muita gente pensava. Não é um cabeludo, mas uma cabeluda, Christine Frka, uma das integrantes do grupo de groupies que seguia Zappa e sua banda, as GTOs – Girls Together Outrageously (Garotas Juntas Escandalosamente). A foto mostra Christine esperando à surdina dentro de uma piscina suja e abandonada em uma mansão de Beverly Hills. Sugestivo?
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